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I - CIÊNCIA E ORIGEM DO UNIVERSO

1. REASONABLE FAITH

WILLIAM LANE CRAIG

(Bernardo Motta)

Demonstrar a existência de Deus e Seus atributos com base no modelo standard do Big Bang.

 

William Lane Craig (1949-) é um filósofo e teólogo norte-americano, cristão protestante (evangélico) e uma das figuras de proa da apologética contemporânea. Doutorado em filosofia pela Universidade de Birmingham em 1977, com uma tese sobre o argumento cosmológico para a existência de Deus orientada por John Hick, Craig fez seguidamente novo doutoramento em Teologia na Universidade de Munique sobre o tema da historicidade da ressurreição de Jesus sob a orientação de Wolfhart Pannenberg. Ao longo da sua carreira docente e académica, Craig ficou conhecido pelo seu trabalho extenso sobre estes dois temas, bem como por trabalhos vários sobre a filosofia do tempo (com implicações para a cosmologia do Big Bang e para a interpretação filosófica da teoria da relatividade) e sobre a essência de Deus como ser auto-existente. 

 

Craig é muito popular fora do meio académico. A popularidade de Craig deve-se à sua vasta obra de divulgação mas sobretudo aos seus debates com ateus proeminentes, nos quais Craig demonstra o seu talento para debates e a sua capacidade para comunicar conceitos abstractos de forma clara e intuitiva. Muitos dos seus notáveis debates sobre a existência de Deus e a ressurreição de Jesus Cristo, com figuras como Sam Harris, Christopher Hitchens, Lawrence M. Krauss, Lewis Wolpert, Antony Flew, Sean Carroll, Sir Roger Penrose, Peter Atkins, Bart Ehrman,  Paul Draper, Gerd Lüdemann e A. C. Grayling, estão disponíveis na Internet.

Craig foi presidente da Evangelical Philosophical Society entre 1996 e 2005. 

 

A sua obra "Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics" (3ª edição em 2008) é ímpar no sentido em que defende a existência de Deus à luz dos actuais factos cosmológicos numa linguagem que é acessível a leitores leigos em Física, Cosmologia e Metafísica. Várias obras contemporâneas defendem a existência de Deus e os Seus atributos com base em argumentos filosóficos, como é o caso das obras do filósofo tomista Edward Feser. Esta obra de Craig tem o mérito de defender a existência e os principais atributos de Deus através de uma defesa robusta do argumento cosmológico "kalam" com base na cosmologia do Big Bang, e endereçando as principais teorias cósmicas alternativas ao modelo standard que têm sido propostas nos últimos 50 anos. São também apresentados outros argumentos filosóficos para a existência de Deus, conciliados com os factos científicos à luz do conhecimento actual, o quer permite a Craig estruturar uma estratégia "cumulativa" pela qual argumentos diferentes coincidem de forma independente na conclusão de que Deus existe.

 

Na primeira parte da obra, "How do I Know Christianity is True?", Craig aborda a crença na existência de Deus de um ponto de vista epistémico: quais as bases para se acreditar que Deus existe? Nesta primeira parte, Craig coloca em contraponto perspectivas católicas e protestantes acerca deste tema complexo. De um ponto de vista católico, esta primeira parte não deixa de ser problemática. Todavia, são explicadas distinções importantes como, por exemplo, a distinção entre saber que Deus existe e demonstrar que Deus existe. A larga maioria das pessoas que estão convencidas de que Deus existe não sabe demonstrar nem fundamentar racionalmente a sua Fé em Deus. Craig apresenta-nos o filósofo Alvin Plantinga, que defende que a crença em Deus é propriamente básica, ou seja, uma crença que não requer argumentos para ser epistemicamente justificada e fundamentada. Craig conclui que o cristão sabe que Deus existe pelo testemunho interior do Espírito Santo, ao mesmo tempo que precisa de argumentos e razões independentes desse testemunho interior se quiser mostrar a alguém que Deus existe.

 

Na segunda parte, "The Absurdity of Life Without God", Craig apresenta alguns dos problemas filosóficos do ateísmo, nomeadamente as consequências que a rejeição de Deus acarreta para três aspectos da existência humana: a perda do seu significado, a perda do seu valor, a perda do seu sentido. 

 

Certos historiadores da Ciência descobriram recentemente que o progresso da Ciência foi, entre outros factores, fruto de uma confiança epistémica fundamentada na teologia cristã da Criação e na teologia da "imago Dei". Esta teologia vê o Homem como uma criatura feita por Deus à Sua imagem e semelhança: que o Universo seja inteligível é consequência de ter sido criado por um Deus perfeito e racional, um Deus fiel que não entra em contradição, e que tudo fez segundo medida, número e peso conforme diz o Livro da Sabedoria. Por outro lado, que o Homem seja capaz de inteligir esse mesmo Universo é consequência de ser a inteligência humana, de certo modo, análoga à inteligência divina.

 

Com a progressiva secularização do Ocidente, sobretudo do século XIX em diante, surge o crescimento do ateísmo, sobretudo nos meios urbanos e académicos. Uma vez removida a Fé cristã que subjaz à empreitada científica, o resultado do ateísmo unido ao conhecimento científico é catastrófico para a compreensão da existência humana e do sofrimento humano. A Ciência, o fruto luminoso da cultura cristã, uma vez extirpada da sua matriz cristã originária, torna-se num perigoso solvente para o sentido, significado e valor da existência humana. 

 

Craig explica que a descoberta do Big Bang e da história do Cosmos, se fosse feita pelas lentes do ateísmo, revelaria um Universo fruto do acaso. Não tivesse havido Big Bang e provavelmente não existiríamos. A Física prevê que a expansão inexorável do nosso Universo irá terminar na sua "morte térmica", numa distribuição perfeitamente uniforme de todas as partículas, um estado incompatível sequer com uma Tabela Periódica dos elementos, quanto mais com a existência de vida, e menos ainda de vida inteligente. O ser humano surge então como um mero e ínfimo acidente cósmico. Nesse cenário deprimente, que espaço há para o sentido da vida humana, sem ser no sentido puramente subjectivo que cada ser humano inventa para si mesmo? O crescimento de um ateísmo ancorado nas ideias de Darwin amplia este fenómeno, levando também à erosão do valor da vida humana. Dawkins disse famosamente que o ser humano nada mais era do que uma máquina biológica para propagar o seu ADN. Nessa cosmovisão, o valor moral da vida humana deixa de ser objectivo. Desaparecem os fundamentos objectivos para uma vida moral orientada por um referencial de Perfeição moral em Deus. Desaparecem o bem e o mal como valores objectivos. O valor do ser humano como agente moral, nesta visão deprimente, é apenas aquele valor subjectivo que inventarmos para nós mesmos, ou o valor convencionado pelas sociedades humanas com base na opinião da maioria. Por fim, desaparece o sentido para a existência humana. No cristianismo, esse sentido consiste na vida moral guiada pela Lei de Deus que conduz à perfeição possível ao ser humano, perfeição que ainda se pode atingir nesta vida, consoante o grau de obediência e fidelidade do ser humano a Deus. No ateísmo, nada disto parece existir: não se vê como fundamentar progresso moral objectivo sem um referencial objectivo de Bem. O sentido da nossa existência fica reduzido à dimensão atómica das nossas construções individuais e subjectivas. Cada qual inventa um sentido para si mesmo, um sentido ilusório que terminará na morte, que para o ateu é o fim da sua existência. Ser humano e Cosmos partilham o mesmo fim inexorável: a extinção.

 

Craig, nesta segunda parte, recorda a profundeza literária e filosófica de Dostoievski, nomeadamente como o escritor russo confrontou o drama da existência humana através das suas obras. Craig argumenta que Dostoievski, escrevendo sobre o sofrimento humano, mostrou o absurdo da vida sem Deus. Em particular, reflectindo sobre as personagens Raskólnikov ("Crime e Castigo") e Iván Karamázov ("Os Irmãos Karamázov"), Craig recorda que Raskólnikov, após assassinar uma mulher idosa, não consegue explicar de onde vem a culpa e o remorso que, à luz do seu ateísmo, não deveria sentir. Já Iván, diz Craig, incapaz de viver à luz das suas convicções filosóficas, entra em colapso moral e mental. Em contraste total, o seu irmão mais novo, Alexey, encontra na riqueza espiritual da sua vida interior a saúde mental e psicológica necessárias para gerir os complexos conflitos familiares e as dificuldades da vida. 

 

Na terceira parte do seu livro, Craig defende detalhadamente dois argumentos para a existência de Deus: o argumento cosmológico na variante "kalam" e o argumento teleológico na variante conhecida pela designação de "fine tuning". Ao longo da sua carreira, Craig ficou conhecido pela sua defesa do argumento cosmológico na versão "kalam" que deve o seu nome a filósofos maometanos como Algazel. Os argumentos cosmológicos chamados "kalam" argumentam a existência de Deus a partir da finitude do passado. Craig apresenta desta forma a sua formulação deste argumento:

 

(1) O que começa a existir tem uma causa.

(2) O universo começou a existir.

(3) Logo, o universo tem uma causa.

 

Que algo possa surgir do nada, e sem razão alguma, colide com a nossa intuição racional. Explicar racionalmente o surgimento de algo implica compreender a causa do surgimento desse algo. Se admitimos, por absurdo, que algo começaria a existir sem causa nem razão algumas, admitimos haver algo de irracional na realidade. Abrimos a porta à existência de factos absurdos e incompreensíveis. 

Craig defende brevemente a primeira premissa, procurando defender com mais detalhe a segunda premissa. Note-se que o argumento em questão é um silogismo na forma "modus ponens", e que afirmadas as premissas (1) e (2), a conclusão (3) segue inevitavelmente pelas regras lógicas dos silogismos.

 

Craig defende a premissa (2) de duas formas diferentes: apresentando argumentação filosófica mas também científica contra a possibilidade de um passado infinito do universo. Filosoficamente, a infinitude do passado implicaria, diz Craig, um número infinito de eventos passados. O autor opta por tomar neste livro como verdadeira a teoria A do tempo (conceito de McTaggart), ou seja, que os eventos no tempo não são igualmente reais, sendo que apenas o presente existe: o passado já não existe e o futuro ainda não existe. A Teoria A do tempo é contraposta à teoria B do tempo, que defende que passado, presente e futuro são igualmente reais. Craig pode ser desculpado por não fundamentar devidamente a teoria A do tempo nesta obra de apologética, dado que o autor dedicou não menos de quatro volumes à questão do tempo ("The Tensed Theory of Time: A Critical Examination" e "The Tenseless Theory of Time: A Critical Examination", ambos publicados em 2000), à questão da relação do tempo com a teoria da relatividade de Einstein ("Time and the Metaphysics of Relativity", 2001), e ainda à questão da relação do tempo com Deus ("God, Time and Eternity", 2001).

Apoiando-se em Hilbert, nomeadamente no paradoxo do "Hotel de Hilbert", Craig demonstra que supor uma infinitude de eventos passados leva a conceitos absurdos, sendo um indicador de que não existe tal infinitude. 

 

De um ponto de vista científico, o cerne desta obra está na defesa que Craig faz da premissa (2) usando argumentos baseados na cosmologia contemporânea. Até à década de 1920, os cientistas adoptavam maioritariamente a ideia de um cosmos eterno, sempre existente. Einstein, ao aplicar a sua nova teoria gravítica (a teoria da relatividade geral) ao cosmos deu-se conta de que era difícil obter um modelo eterno e estático do cosmos sem a introdução de um parâmetro para compensar os efeitos da gravidade. No seu artigo pioneiro de 1927, "Un univers homogène de masse constante et de rayon croissant, rendant compte de la vitesse radiale des nébuleuses extra-galactiques", o padre Belga Georges Lemaître propõe um modelo cosmológico baseado numa solução das equações de campo de Einstein na qual o raio do Universo cresce ao longo do tempo. Lemaître adapta o seu modelo aos dados observacionais compilados por Stromberg (1925) e Hubble (1926), chegando a um coeficiente de expansão do universo de cerca de 625 quilómetros por segundo para um objecto localizado a um megaparsec de distância. Pela primeira vez, dados observacionais eram harmonizados com um modelo do cosmos em expansão. O matemático russo Friedmann propôs um modelo semelhante em 1922 e 1924, sem no entanto o procurar harmonizar com observações astronómicas. Desta forma, diz Craig, o modelo de Friedmann-Lemaître inaugurava uma interpretação temporal da história do universo, um universo com um passado finito, e que portanto começou a existir. Graças ao físico norte-americano Fred Hoyle, este modelo ficou conhecido como o modelo do Big Bang.

 

Desde então, o progresso das últimas décadas em cosmologia vingou o modelo, sendo hoje improvável que o mesmo esteja fundamentalmente errado. A descoberta da radiação cósmica de fundo por Penzias e Wilson em 1964, juntamente com a abundância de elementos leves no cosmos, o estudo da morfologia e distribuição das galáxias e a descoberta recente, em 2011, de nuvens primordiais de gás compostas por elementos leves, são dados empíricos que reforçam fortemente a teoria do Big Bang. No início da década de 60, vários físicos tentavam desenvolver o modelo "steady state" do universo, provavelmente devido a motivações metafísicas, num esforço para tentar recuperar a ideia de um cosmos eterno e assim evitar as conclusões teístas que surgiam naturalmente de um cosmos em expansão e com início num passado finito. Todavia, a descoberta de Penzias e Wilson afectou seriamente a viabilidade dos modelos "steady state". 

 

Dir-se-ia, então, que a cosmologia contemporânea demonstrou a premissa (2), que o universo realmente tem um passado finito, ou seja, começou a existir? Na mente da maioria dos físicos e cosmólogos, sim. Parece hoje inevitável aceitar que nos melhores modelos cosmológicos, quando fazemos regredir a variável temporal, chegamos a um ponto inultrapassável, uma singularidade matemática na qual se atinge o limite matemático do modelo. Os melhores modelos indicam que, há cerca de 13,7 mil milhões de anos, o universo com toda a sua matéria e energia surgiu do nada, e que o próprio tempo teve um início. O corolário deste resultado é que não existem instantes de tempo anteriores a esse instante inicial do universo. Todavia, continuam a ser propostos modelos cosmológicos alternativos. Num esforço para responder a estes novos modelos, e assim escorar ainda melhor a premissa (2) do seu argumento, Craig passa em revista as várias opções alternativas ao modelo standard. Fá-lo usando usando o teorema de Borde, Guth e Vilenkin, que data de 2003. Segundo esse teorema, qualquer modelo cosmológico no qual a taxa de expansão seja, em média, positiva irá ter uma singularidade, um início dos tempos. Este teorema é de tal forma abrangente que se aplica a modelos cosmológicos que não se baseiem na Relatividade Geral, bem como a modelos a múltiplas dimensões, como os decorrentes da teoria de cordas, ou "teoria-M". Craig cita os autores do teorema: "O nosso argumento pode ser facilmente estendido a cosmologias a maiores dimensões".

 

Os modelos oscilantes supõem fases contíguas de expansão e contracção do universo, evitando dessa forma o início dos tempos. Estes modelos padecem do problema de serem implausíveis à luz das actuais evidências: não só a densidade de matéria no universo é insuficiente para travar a expansão do universo, como os dados observacionais apontam para uma expansão acelerada. Ora, um universo que tenha uma taxa média de expansão positiva irá ter um início temporal, como demonstraram Borde, Guth e Vilenkin.

 

Os modelos de flutuação do vácuo procuram defender a existência de uma realidade estática primordial e eterna, um vácuo, cuja energia se converte em matéria através de um processo quântico, dando assim origem a novos universos. Desta forma, apesar do "nosso" universo ter tido um começo, o substrato material que o originou seria eterno. O problema com este tipo de modelos, para além de serem altamente especulativos, é que tal substrato, existindo eternamente, deveria ter gerado uma infinitude de universos que num passado infinito entrariam necessariamente em colisão uns com os outros. O que deveríamos observar, e não observamos, seria o resultado, em tempo infinito, dessas colisões: um multiverso infinitamente velho no qual teria decorrido tempo suficiente para todos os universos colidirem entre si e coalescerem. 

 

O sofisticado modelo de inflação caótica proposto pelo cosmólogo Russo Andrei Linde defende que quando um universo atinge um certo volume gera, por inflação, um novo universo, e assim "ad aeternum". Neste modelo, não existe fim para este processo de geração de novos universos a partir de outros pré-existentes, sendo que também não existe um começo temporal: o início de um novo universo depende causalmente de outro universo distinto que o gerou por inflação. Todavia, desde 2003 que sabemos, graças a Borde, Guth e Vilenkin, que mesmo este tipo de modelos teriam necessariamente início numa singularidade, pelo que não são eternos no passado.

 

Se universos ou multiversos clássicos, em média em expansão, se sujeitam à necessidade de um começo dos tempos, que alternativas restam ao defensor de um cosmos eterno? Uma alternativa passa por introduzir modelos de gravidade quântica. James Hartle e Stephen Hawking propuseram uma solução matemática para eliminar a singularidade no início do tempo, substituindo a região da variedade antes do tempo de Plank, uma variedade cónica que termina na singularidade, por uma variedade a quatro dimensões na qual o tempo constitui a quarta dimensão, o que é feito introduzindo números imaginários na variável temporal das equações de Einstein. Ora, explica Craig, há pelo menos dois problemas com esta solução: em primeiro lugar, introduzir quantidades imaginárias na variável temporal não tem significado físico: a "seta" do tempo, intimamente relacionada com a segunda lei da termodinâmica, implica uma assimetria real que não existe quando se converte o tempo numa quarta dimensão. Mas ainda assim, a eliminação da singularidade (a "ponta" do cone na qual o tempo e o espaço "começam") é feita pela introdução artificial de uma curvatura fechada, o que implica que o passado continua a ser finito.

 

Craig recolhe mais evidências das propriedades termodinâmicas do universo, e em particular, extrai as implicações cosmológicas da Segunda Lei da Termodinâmica, que diz que num sistema fechado os processos físicos tendem a um estado de equilíbrio. Se o universo fosse eterno no passado, já deveria estar em equilíbrio termodinâmico, e claramente não está. Craig: "Por outras palavras, a não ser que se alimente constantemente um sistema com energia, os processos nesse sistema tenderão a abrandar e parar". Segundo Craig, o que sabemos sobre termodinâmica reforça ainda mais a finitude do passado do universo do que os dados astronómicos que sustentam a teoria do Big Bang.

 

Mas como deduzir, da finitude do passado, que a causa do surgimento do universo seja Deus? É então que Craig introduz a sua conhecida "análise conceptual" aos atributos que tal causa do universo deve ter: para explicar o surgimento do espaço-tempo, tal causa deve estar "fora" do espaço e do tempo, ou seja, possuir um modo de existência a-temporal e não-espacial. Daqui decorre que tal causa tem que ser imutável (por ser a-temporal) e imaterial (por ser não-espacial). Por fim, Craig defende ainda que esta causa é um agente pessoal, e fá-lo usando três argumentos: primeiro, tal causa não pode ser uma explicação científica (senão faria uso de processos espácio-temporais e de matéria-energia), pelo que a explicação racional alternativa é a de tal causa é um agente livre, que criou o universo fruto de uma decisão pessoal. Em segundo lugar, diz Craig, as únicas entidades imateriais que conhecemos são mentes ou entes abstractos; mas entes abstractos, como números ou proposições, são desprovidos de poder causal, pelo que a causa do universo se coaduna mais facilmente com os poderes causais de uma mente. Por fim, Craig diz que a causa do universo é um agente pessoal pelo facto de haver uma assimetria entre a causa (a-temporal) e o efeito (um universo temporal). Se a causa do universo fosse algo impessoal, sempre existente e imutável, então as condições necessárias para surgir o efeito, o universo, deveriam também existir desde sempre nessa causa primeira. Apenas a decisão de um agente livre pode criar as condições necessárias a um começo dos tempos, que é o começo do nosso universo. 

 

Assim, conclui Craig, "podemos inferir que existe um Criador pessoal do universo que é não-causado, sem princípio, imutável, imaterial, a-temporal, não-espacial e inimaginavelmente poderoso. Isto, como Tomás de Aquino costumava notar, é o que todos entendem por Deus".

 

Para concluir a terceira parte do seu livro, Craig apresenta e defende mais três argumentos para a existência de Deus: o argumento teleológico, o argumento moral, o argumento ontológico. O argumento teleológico, com uma respeitável história que conta com defensores como Aristóteles e São Tomás de Aquino, é um dos mais interessantes argumentos a serem novamente propostos por filósofos contemporâneos, sobretudo à luz dos actuais conhecimentos científicos na área da cosmologia. Craig apresenta o argumento teleológico neste formato:

 

(1) A afinação do universo é devida, ou a necessidade física, ou ao acaso, ou a "design" (finalidade)

(2) Não se deve a necessidade física nem ao acaso

(3) Logo, deve-se a "design" (finalidade)

 

Craig, tendo antes defendido que a premissa (1) esgota todas as possibilidades explicativas, escreve que a afinação do universo é hoje um facto não polémico: dizer que o universo está afinado não implica supor uma inteligência que o afinou: é apenas a constatação de que a existência de vida inteligente no universo depende da afinação incompreensivelmente precisa de um conjunto específico de parâmetros físicos, como determinadas quantidades e constantes. A explicação da necessidade física não parece razoável: afinal, porque motivo não poderia o universo possuir um pouco mais de massa ou um pouco menos de energia? Parece plausível supor que o universo poderia apresentar uma distribuição diferente da sua massa ou uma densidade diferente. Ou poderia ter apresentado um grau de entropia inicial diferente. Ora a necessidade física excluiria essas possibilidades, fixando rígida e necessariamente os parâmetros em questão. A explicação alternativa, o acaso, também não é considerada razoável por Craig, embora seja a explicação preferida por muitos cientistas ateus e agnósticos como forma de evitar a conclusão teísta que o argumento teleológico acarreta: se a afinação do universo é colossalmente improvável, a escapatória mais óbvia consiste em multiplicar, de forma também colossal, o número de universos. É a chamada hipótese do multiverso, que hoje é defendida de várias formas. Craig critica-as como estratégias "ad hoc" imaginadas para multiplicar os recursos probabilísticos, sem qualquer evidência empírica, até que a existência de um universo afinado, o "nosso", seja mais provável do que a afinação que constatamos.

 

De seguida, Craig apresenta o seu argumento moral:

 

(1) Se Deus não existe, então valores e deveres morais objectivos não existem

(2) Existem valores e deveres morais objectivos

(3) Então, Deus existe

 

O conceito essencial aqui é o de moralidade objectiva, ou seja, factos morais independentes do sujeito, "versus" moralidade subjectiva, ou seja, a mera codificação de comportamentos em sociedade baseada em princípios subjectivos, diferentes em cada sujeito, mas aceites e aprovados por uma maioria. Craig mostra como a combinação de uma cosmovisão ateísta com o darwinismo levam facilmente à negação de valores e deveres morais objectivos. Recentes contributos em psicologia evolutiva procuram representar os valores morais inerentes à vida social do ser humano como sendo "produtos da evolução sócio-biológica". Talvez não seja uma tarefa impossível, mas não tem sido fácil a um naturalista fundamentar a existência de direitos e deveres morais objectivos se o ser humano é apenas produto de um processo evolutivo não guiado. Se a dimensão moral surgiu apenas, como se convencionou dizer, pelas suas vantagens de sobrevivência de grupo e evolutivas, então qualquer factualidade moral é ilusória. A relevância moral de, suponhamos, um homicídio, equipara-se então à de um animal que mata outro animal: ou seja, nenhuma relevância moral. Por outro lado, quem está disposto a aceitar as consequências de que não existem valores e deveres morais objectivos, que são a base dos sistemas judiciais e policiais das nossas sociedades, ou ainda mais, que são a base do comportamento humano em todos os seus variados aspectos, desde a vida familiar, passando pela vida comunitária e terminando no governo das sociedades? 

Craig comenta ainda a possibilidade de uma moral platónica ateia: mas mesmo que existisse um platónico "mundo de ideias" no qual poderíamos fundamentar conceitos abstractos como "misericórdia, justiça, amor" e assim por diante, de onde surgem as obrigações morais que vinculam um indivíduo a pautar a sua vida por esses conceitos abstractos? Afinal, num mundo platónico, também existiriam a "ideia de mal", a "ideia de egoísmo", a "ideia de tortura", e assim por diante: o que levaria um indivíduo a ter que moldar o seu comportamento por certas ideias e não por outras?

Craig refere e responde a várias objecções comuns erigidas contra o argumento moral, nomeadamente o célebre dilema de Eutifro, e termina esta parte da obra com o argumento ontológico, que procura demonstrar a existência de Deus a partir da própria definição de Deus, usando a formulação do filósofo norte-americano Alvin Plantinga.

 

Na quarta parte, Craig analisa a questão do conhecimento histórico e a problemática dos milagres. Como é sabido por quem acompanha a historiografia contemporânea do Novo Testamento, as últimas décadas assistiram a uma mudança radical. Os historiadores contemporâneos, em larga medida, abandonaram as teorias mitológicas surgidas no século XIX e que se tornaram predominantes na primeira metade do século XX, preferindo hoje olhar para o Novo Testamento como uma colectânea de textos biográficos com inúmeras evidências de factualidade histórica. O estudo estatístico dos nomes próprios usados no Novo Testamento, juntamente com estudos sobre a flora, a meteorologia, a toponímia e a comparação da cronologia interna com datas históricas externas aos textos têm contribuído de forma decisiva para esta mudança de paradigma. Por outro lado, a descoberta de papiros cada vez mais antigos contendo trechos do Novo Testamento tem contribuído para que os historiadores possam determinar com cada vez maior precisão as cadeias de transmissão das variantes textuais e assim datar o surgimento dos textos em datas cada vez mais recuadas e próximas dos acontecimentos que se seguiram à morte de Jesus Cristo. Esta mudança de paradigma não pode senão reforçar a credibilidade dos factos narrados no Novo Testamento, incluindo os relatos sobre os milagres realizados por Jesus. Tais milagres serão certamente uma impossibilidade para historiadores que defendam o ateísmo, mas não se passa o mesmo com historiadores agnósticos ou teístas.

 

Na quinta e última parte, Craig apresenta argumentação para a historicidade da ressurreição de Jesus, contrapondo várias explicações possíveis para os factos narrados pelas testemunhas oculares e apresentando a ressurreição como a explicação mais plausível, em formato de inferência para a melhor explicação.

 

Optámos por descrever em maior detalhe o conteúdo da terceira parte deste livro devido à originalidade do seu conteúdo e acessibilidade do seu formato, sem no entanto querermos com isso menosprezar o valor das partes quarta e quinta desta obra, cuja leitura muito recomendamos.

 

Os leitores mais exigentes e versados em Matemáticas e Física poderão considerar que este livro não apresenta os modelos cosmológicos contemporâneos com detalhe académico nem responde de forma suficiente às críticas oriundas dos meios académicos. Encaminhamos tais leitores para a exposição mais detalhada do argumento cosmológico "kalam" feita por William Lane Craig em conjunto com James Sinclair, que pode ser encontrada no terceiro capítulo da densa obra "The Blackwell Companion to Natural Theology" (2012). Na mesma obra, recomendamos aos leitores mais exigentes a leitura do quarto capítulo, da autoria de Robin Collins, dedicada à defesa académica do argumento teleológico com base na afinação do universo.

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