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IV - ORIGEM DA CULTURA OCIDENTAL: ROMA

1. A TERCEIRA CIDADE

RÉMI BRAGUE

(Mário Rosa)

Rémi Brague nasceu em Paris a 8 de Setembro de 1947. É um filósofo especialista em filosofia medieval árabe, judaica e cristã. (Veja-se a nossa recensão sobre este autor – VII. Cultura Cristã Ocidental Contemporânea, Grandes Filósofos Actuais.)

 

Europe, la voie romaine (1992) é um pequeno livro que vem acabar com uma longa tradição intelectual. Salvo poucas excepções, a origem cultural da Europa sempre foi localizada em duas cidades: Jerusalém e Atenas. Tornou-se um lugar-comum dizer que os romanos não inventaram nada e quando muito, havendo espaço para tecer algum elogio, refere-se apenas que tinham um bom sentido prático.

 

Este livro veio propor uma tese inovadora. «Somos “judeus” e “gregos” porque em primeiro lugar somos romanos». Roma inventou o processo de “transplante” cultural. Ela não sofreu influência da Grécia. Antes, conscientemente tentou implantar a cultura grega. Mais tarde fez o mesmo com a cultura judaico-cristã. Neste sentido, é evidente a conclusão de Rémi Brague: «a experiência do começo como (re)começo é romana».

 

Esta tese torna-se mais clara confrontando Roma com a cultura árabe. Os árabes, como se sabe, foram grandes tradutores. Contudo, no tocante à literatura, eliminavam os originais. Uma vez traduzidos, eles eram elevados a uma língua superior, a língua do profeta. Roma, pelo contrário, reconheceu sempre a superioridade cultural da Grécia. Neste sentido abriu a possibilidade cultural de um contínuo regresso às origens e isto marcou profundamente a Europa. A cultura europeia viveu sempre de contínuos renascimentos.

 

A tese de Rémi Brague vai ainda mais longe. Grécia e Israel puderam continuar a ser o que eram exactamente porque foram integrados nesta peculiar cultura romana. Ou seja, Roma compreendeu-se sempre como mediadora entre um classicismo a imitar e uma barbárie a educar. Poucas vezes tivemos na história uma auto-compreensão de uma cultura como sendo fundamentalmente traditio (entrega), como tradição.

 

Rémi Brague estende esta ideia à compreensão do catolicismo como “romano”. Há uma feliz coincidência entre Roma e o cristianismo. Ambas têm uma concepção do tempo linear; ambas pretendiam ser universais. Repare-se que os romanos herdaram dos Etruscos a ideia de inclusão cultural, através da concepção da pax deorum. (cfr: Marta Sordi, Pax Deorum e a Concepção da História de Roma, Tratado de Antropologia do Sagrado, vol. III). A Igreja romana fará o mesmo mas através da distinção entre religião e cultura: a primeira tem de ser substituída, a segunda não.

 

Qualquer que seja a objecção que queiramos levantar, chama à atenção a fecundidade da língua latina. Ao mesmo tempo que se impunha como universal, deu origem a uma pluralidade de línguas. E Rémi Brague salienta este facto comparando-o, neste campo, com a esterilidade da língua grega. (A este propósito veja-se a nossa recensão sobre Ernst Robert Curtius – V. Origem da Cultura Ocidental: Letras, 4. Literatura Europeia)  

 

Por fim, a tese deste livro tem de ser completada pela referência a dois autores que Rémi Brague fará noutras obras: Harold Berman e Lord Acton. Entre ambos fica mais clara a influência que o catolicismo romano exerceu na criação das instituições europeias fundamentais: jurídica e política.

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