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FLANNERY O’CONNOR

Recensão

(Mário Rosa)

Flannery nasceu em 1925, na Geórgia, e morreu, jovem ainda, em 1964. Escreveu dois livros e trinta e dois contos. Há traduções para português de quase toda a sua obra.

 

Os contos de Flannery são murros no estômago. Passar para a leitura de outro conto não é fácil. A primeira reacção é de parar por ali e “desconversar” com algum assunto premente.

 

Ao contrário de Barbey não encontramos na sua escrita momentos alternados de riso e horror. Não existe nenhum tom polémico. É tudo muito seco. Diria mesmo fotográfico. Conduz as pessoas a situações cruas e parece dizer: vê. Se alguma das suas personagens reage à altura, quase nos soa a histerismo.

 

A solução que oferece é sempre Deus. Mas quase como uma receita no fim de uma consulta e num tom de médico resignado à desobediência do doente: “o senhor tem esta doença. É grave. Tome isto. Não lhe posso garantir que se cure. Vai depender também de si. Venha cá daqui a dois meses. Adeus.”

 

Outros contos desconcertam por nem se mostrar a doença. Não é nada e é tudo. É a condição humana doente e prévia às consequências dos seus actos, é o próprio mundo que é estranho e tudo menos redondo.

 

Se isto é assim, porquê ler Flannery O’Conner? Para ver. É importante ver. E com maioria de razão quando nada nos seus contos nos convida a entrar neles ou a segui-los.

 

A Good Man Is Hard to Find é o seu conto mais conhecido e também o mais fácil de compreender. Responde a uma pergunta: o que é este mundo sem Deus? Outros contos necessitam de mais cuidado de observação. De saber identificar sintomas de um mal que ocorreu mais atrás ou que aparecerá no fim. Passo a um exemplo.

 

The Bible Salesman, O Vendedor de Bíblias, conta a história de um homem que bate à porta de uma casa para vender Bíblias. Na casa estão duas pessoas: a mãe e a filha. A mãe é crente e quer receber o vendedor; a filha, que tem uma prótese numa das pernas, tirou filosofia, é ateia e quer desmascarar o vendedor. Acaba por acompanhá-lo num passeio e tenta seduzi-lo. Dirigem-se a um celeiro. Lá dentro, o vendedor de bíblias, enquanto se envolve com ela tira-lhe muito delicadamente a prótese. Imediatamente a seguir vai-se embora e leva a prótese com ele. E acaba o conto.

 

A rapariga era uma ateia que pensa que só se pode ter fé por hipocrisia, estupidez ou dinheiro. Ela quer desmascarar aquele homem. Consegue. Mas não no sentido que ela esperava. Ele também a desmascarou. E em dois sentidos: nas suas intenções pouco sinceras; e fazendo-a desejar o que ela nunca imaginaria: que ele acreditasse mesmo na Bíblia só para que não lhe levasse a prótese.

 

Com Flannery O’ Connor a guerra sobre intenções entre ateus e crentes deveria ser um ponto final. A questão é só uma: Deus existe ou não? O resto não é decisivo. Assim mesmo respondeu Flannery O’Connor, como nos conta numa das suas cartas, quando Mrs. Broadwater lhe disse que a Eucaristia não passava de um símbolo: Well, if it’s a symbol, to hell with it.

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