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V - ORIGEM DA CULTURA OCIDENTAL: LETRAS

1. A INVENÇÃO DA LEITURA SILENCIOSA

PAUL SAENGER

(Mário Rosa)

As decadências culturais resolveram-se com um regresso às origens. “Que regresso devemos defender?” foi a pergunta que analisámos na recensão anterior. Em primeiro lugar – respondemos – dando a conhecer as grandes conquistas culturais que Jerusalém e Atenas nos legaram. Ora, este objectivo não é possível atingir sem nos determos numa questão que, à primeira vista, parecerá menor mas que será decisiva: como nos legaram?

 

Neste âmbito, ocorre-nos imediatamente a longa Idade Média latina e como foi através dela que nos chegaram os grandes livros clássicos. E este caminho do livro teve um trajecto preciso: mosteiros, depois catedrais e, finalmente, escolas urbanas. Leighton Reynolds e Nigel Wilson, no livro Scribes and Scholars: A Guide to the Transmission of Greek and Latin Literature, descrevem-nos este trajecto. No capítulo III, O Ocidente Latino, destacam o renascimento carolíngio e o renascimento do séc. XII. Vale a pena ler e perceber a importância destes dois períodos. Contudo, descuram dois aspectos fundamentais neste processo de transmissão.

 

O primeiro foi amplamente tratado por Rémi Brague (veja-se a recensão sobre este autor) através da comparação com a cultura Árabe. Os árabes, como se sabe, foram grandes tradutores. Mas é de notar que, no caso da literatura, eliminavam os originais. A tradução elevava o texto original a uma grandeza que ele desconhecia: a língua árabe, a língua perfeita, a língua de Alá. Por isso, a cultura Árabe não conheceu renascimentos e estagnou. A vitalidade da nossa cultura deve-se, entre outras coisas, à possibilidade que o Cristianismo permitiu de um regresso às origens.

 

O segundo aspecto é mais subtil e, consequentemente, mais difícil de perceber. Por muito que se reconheça a cultura medieval ela é sempre reduzida ao papel de transmissão, de ser apenas um meio. A verdadeira criação cultural teria vindo depois. Mas mesmo no caso de admitirmos que ela foi apenas um meio de transmissão, ainda teríamos muito a dizer.

 

Deve-se a Marshall Mclhuan a originalidade de pensar os meios de transmissão cultural, de comunicação, de um modo sistemático e profundo. A famosa afirmação na introdução ao seu livro Understanding Media: The Extensions of Man (1964) passou a ser uma referência metodológica: The medium is the message. Sem dúvida que o “meio” não é a mensagem, mas de forma alguma é indiferente a ela. E, em muitos casos, é essencial.

 

Foi esta abertura de pensamento que permitiu a Paul Saenger escrever o seu livro Space Between Words, the origins of silent reading. A tese é simples e de consequências intermináveis. Houve duas invenções medievais sobre os textos sem as quais um livro nos nossos dias seria praticamente ilegível. Com efeito, nunca poderemos valorizar devidamente o que significou a invenção da letra minúscula e, sobretudo, a invenção do espaçamento entre palavras. Até à Idade Média existia a chamada scriptura continua, a escrita contínua. Por isso, até ali, era necessário ler em voz alta porque o reconhecimento fonético ajudava o difícil reconhecimento visual. Não era por acaso que, na Antiguidade, a leitura se fazia sobretudo de modo colectivo. Só uma pessoa com muita prática e conhecendo muito bem o texto poderia aventurar-se a ler em silêncio. Daqui decorre a surpresa de Santo Agostinho ao ver Santo Ambrósio ler as Escrituras em silêncio (cfr. Confissões, Livro VI, III).

 

Podemos valorizar tanto quanto quisermos a invenção da Imprensa. Mas havia já um acontecimento cultural que se tornara um «facto brutal» e sem o qual a Impressa nunca teria tido o êxito que teve: a leitura individual. As implicações deste tipo de leitura são tão vastas que rapidamente deu lugar a um novo tipo de mentalidade, a nossa.

 

Devemos ainda aprofundar mais na questão: a que se deve a invenção deste «facto brutal» da nossa cultura? Antes de mais, a Israel. Nunca a leitura de um livro se tornou tão decisiva numa cultura. Mais, nunca se pretendeu estender tanto quanto possível a leitura de um livro. Neste sentido, a invenção da leitura individual e tão extensível não se daria sem a Bíblia. Sem a Bíblia a história do livro no Ocidente seria outra.

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